“Para levar nossa cultura a um nível mais alto somos forçados, gostemos ou não, a mudar nossa arquitetura. E isso só será possível se livramos as dependências em que vivemos de seu caráter fechado.
Isso, por sua vez, só será possível pela introdução de uma arquitetura de vidro que deixe entrar luz do sol, da lua e das estrelas, não só por algumas janelas, mas pelo maior numero possível de paredes, que devem ser inteiramente de vidro, de vidro colorido”
Paul Scheerbart, Glasarchitektur, 1914.
O surgimento do expressionismo.
A arquitetura expressionista se desenvolveu no clima agitado do pós guerra alemão , onde necessitando-se construir uma sociedade em ruínas, os arquitetos percebem que representam o espírito construtivo da nova Alemanha democrática e se inserem no processo revolucionário que vinha se desenvolvendo, na vanguarda artística russa. A pintura e a literatura expressionista foras surgindo antes e no decorrer da 1 guerra mundial. Para um povo imbuído pela revolução, o expressionismo parecia não apenas uma negação das tradições burguesas, mas também um profissão de fé na força , na capacidade de transformar livremente a natureza e a sociedade.
Para os arquitetos ,com Primeira Guerra no horizonte e depois dela, o cenário permitia condições onde a consciência de uma nova atitude no ambiente e a necessidade de construir, pelo efeito devastador do conflito, conduziria à utilização de materiais com diferentes finalidades e uma nova forma de definir a plástica da arquitetura em si, assim a arte expressionista tinha como características marcantes os ângulos acentuados, de contornos sombrios e as cores contrastantes – puras e ácidas – verdes, vermelhos, amarelos e negro. Expressava não o fato em sí, mas o sentimento do artista em relação a este, logo, uma visualidade subjetiva, mórbida e dramática.
Antecedendo o expressionismo grupos como a Fundação da Nova Federação ou Associação da Arte (Neue Künstler Vereinigung) em Munique, 1909,liderada que pelo pintor Vassily Kandinsky, e através dos periódicos a tempestade (Der Sturm) e A Ação (Die Aktion), vão fomentar uma contracultura, em oposição á estatal que fora iniciada com a fundação da Deutsche Werkbund*, hostilizando o reformismo burguês e a cultura do estado industrial, vão contribuir na formação do Novembergruppe, núcleo de pesquisa e experimentação da construção civil, que pressiona o estado á apoiar novas experiências, participando do movimento praticamente todos os arquitetos modernos, dentre eles Poelzig ,Bruno Taut, behrens, Mendelsohn .
*Associação de artesãos ingleses e alemães, formada pelos arquitetos Hermann Muthesius e Henry van de Velde inspirada nos ideais de Walter Gropius. A Deutcher Werkbund pregava o renascimento das artes industriais a partir de uma colaboração entre designers e engenheiros. Eles também apoiavam a máxima de Gropius que dizia que a forma seguia a função e de que todo o ornamento deveria ser abolido
O expressionismo arquitetônico e a formação da cadeia de cristal
“A minha prancheta aqui no escritório continua vazia. Todo dia o mesmo nada. Flutuo no ar como um ‘arquiteto imaginário’”, escreve Bruno Taut, em 1919, referindo-se à recessão que estagnou toda a atividade de construção após a Primeira Guerra Mundial. O efeito da crise política e econômica da Alemanha sobre a geração de arquitetos do período entre guerras não foi paralisante, no entanto. Muito pelo contrário: livres das amarras do funcionalismo e do racionalismo, eles puderam se dar ao luxo de esboçar visões arquitetônicas, independentemente da probabilidade de os projetos serem construídos ou não.
Apesar de inúmeros projetos terem ficado no papel, não foram poucas as visões arquitetônicas que chegaram a se concretizar. Extrapolando o dinamismo dos espaços criados pelo Jugendstil (Art Nouveau), a arquitetura expressionista rompeu de forma mais radical a estática do edifício, explorando a complexidade da iluminação e a maleabilidade dos materiais — seja através de formas cristalinas, como o pavilhão de vidro projetado por Bruno Taut para a Exposição do Werkbund de Colônia, ou através do teor escultural, visível no Einsteinturm de Mendelsohn.
Assim nesse contexto,em 1918 forma-se a arbstatrat fur Kunst ,em Berlim, por Bruno Taut juntamente com o critico de arquitetura Adolph behne. Seu intuito inicialmente era formar um grupo de artistas capaz de exercer pressão política sobre o governo da Alemanha, implantando uma arquitetura utópica para a sociedade que emergia após a segunda guerra mundial.
O Arbeistsrat fur Kunst compreendia cerca de cinqüenta artistas, arquitetos e mecenas , dentre eles os arquitetos Otto bartning, Max Taut, Bernhard Hoetger, Adolf Meyer e Erich Mendelsohn, onde os cinco últimos responsáveis pela exposição de obras visionarias que almejavam “ uma exposição de arquitetos desconhecidos” e “ uma arte para as multimdões”
O grupo Arbeitstrat teve , em 1919, suas atividades afetadas pelos conflitos armados em Berlim , Taut se demitie como líder e Gropius entra em seu lugar, fundindo-se então com o Novembergruppe. Surge então a Cadeia de Cristal,também chama de corrente de vidro, propondo uma forma consciente , livre e a produção pré fabricada
A cadeia de cristal era um grupocom cerca de quatorze pessoas, instigadas pela sugestão de Taut de que “cada um de nós desenhará ou escreverá a breves intervalos de tempo, informalmente e à medida que o seu espírito leve a fazê-lo […], as idéias que lhe agradaria compartilhar com o nosso círculo”.
Além de Taut que se dizia Glas, os personagens mais conhecidos do grupo foram Gropius (sob a alcunha de Mass), Finsterlin (Prometh), o irmão de Taut, Max Taut, que assinava com o próprio nome, os irmãos Hans e Wassily Luckhardt e Hans Scharoun. Idem. Taut, vai ter o impulso original de esboçar, na modernidade, o sentido medieval do templo gótico, aliando-o aos argumentos psicológicos e arquitetônicos do vidro, nos
vários desenhos de concepções scheerbartianas constantes nos livros
Arquitetura Alpina e Die Stadtkrone, ambos de 1919, e Der Weltbaumeister,
de 1920. Partindo da crença de que deveria existir uma espécie de relação
religiosa entre as artes, a arquitetura e a sociedade, Taut ilustrou seus
escritos com projetos para templos cristalinos acompanhados de textos
exaltados, dissonantes ao racionalismo dominante em boa parte das
vanguardas modernas.
Ainda em 1919, o arquiteto Adolf Behne, colega de Bruno Taut
no grupo Arbeitsrat für Kunst, afirmava que o papel do arquiteto em criar um
novo edifício religioso capaz de unificar a energia criativa da sociedade,
como acontecia na Idade Média, deflagrando os caminhos religiosos a
serem seguidos no contexto pós-guerra e ressaltando que mais importante é “construir
uma casa de Deus ideal, edifícios esses onde haveria uma arquitetura que relacionasse o esplendor religioso das catedrais góticas e uma cultura enaltecida através do uso do vidro servindo então para consolidar as aspirações de uma sensibilidade não-repressiva .
Pavilhão de Vidro, Exposição Werkbund, Colônia. Bruno Taut.
As obras na arquietura expressionista e os arquitetos do movimento.
Bruno Tau pode-se se dizer como principal mentor e propagador dessa nova corrente e da nova postura na arquitetura. O pavilhão de vidro é um dos maiores exemplos dessa nova idéias de transparência e da expressão , sendo muitas vezes citado pelo poeta Scheerbart em frases como ‘ A luz quer o cristal “ , “O vidro introduz a nova era” “ construir com tijolos só nos prejudica” e mostravam assim como o expressionismo tomou esse elemento como meio de expressar sentimentos e sensações, bases do próprio movimento.
O pavilhão era uma cúpula onde se infiltrava luz que iluminava uma câmara axial disposta em sete alas e revestida com mosaico de vidro , segundo Taut, modelado segundo uma catedral gótica, em forma piramidal , a que chamava Stradtkrone, “coroa da cidade”, significando em sua forma piramidal
Depois de se tornar arquiteto da prefeitura de Medeburg, Taut concretiza uma sala de exposições. Em 1923 fora então trabalhar com seu irmão no projeto dos primeiros conjuntos residenciais de baixa renda. No entanto, nesse contexto, foi Hans Poelzig e não Taut que veio concretizar a imagem quintessêncial da “coroa da cidade” em vidro. EM 1919 Poelzig anunciou sua afinidade com Cadeia de cristal .
Em seu projeto para a casa da amizade de Istambul, 1917 as formas abobadadas foram aglutinadas de modo a criar um zigurate cujo interior era uma caverna prismática feita de elementos pendentes . Projetou teatro de 5.000 lugares para Max Reinhardt em Berlim, que se aproximava muito de Scheebart em sua luminosa dissolução da forma no espaço, onde o interior seria uma grande cúpula cujo interior possui variedade infinita de ornamentos pendentes onde se confere um movimento sutilmente curvo através da cavidade da cúpula á qual estão presos, a luz lançada contra estes pequenos projetores dá uma impressão de dissolução e infinito.
Fez também cenário para o filme O Golen (1920) a Schauspielhaus para Reinherdt ultima obre sua inteiramente expressionista.
Poelzig também havia criado em 1911 obras como a torre de água Possen e um prédio de escritórios para Breslau, que levou ao formato arquitetônico do edifício Berliner-TAgeblatt construído por mendelsohn em 1921.
Grande Casa de Espetáculos (Grosse Schauspielhaus), Berlim.1919
HANS POELZIG
Já mendelsohn criou sua própria versão da Stadktrone no observatório para Albert Einstein, a Toerre Einstein, em Potsdram, 1917. Combinou formas escultorias do teatro Werkbund de Van de Velde com o perfil geral do pavilhão de vidro de Bruno Taut . A torre Einstein revelava uma afinidade com o vernáculo de telhado em sapê dos arquitetos holandeses Eibink e Snellebrand, os quais , ao lado do Theo wijdeveld, representavam a ala orgânica radical .
A torre Einstein (1919), de Erich Mendelson, também pode-se dizer como a chave da arquitetura expressionista. O arquiteto de terminou a função específica do edifício a partir da função, modelou o bloco de alvenaria exatamente como um escultor, “a partir do gesto da figura, modela as massas plásticas da estatura”. O edifício é concebido como bloco unitário plasmado e escavado.
Erich Mendelsohn .Berliner-Tageblatt, Berlim, Alemanha. 1921
Outros arquitetos vão seguir as tendências da corrente de vidro , ainda que o vidro não seja o principal material a ser posto no projeto, muitos arquitetos vão seguir as máximas do expressionismo, entre eles pode-se destacar Hans Scharoun com a Schminke Haus, Walter Gropius ,Hugo Haring e posteriormente arquitetos ligados a Bauhaus como Mies Van der rohe.
Hugo Häring .Granja em Garkau, Alemanha. 1924. Vistas Leste e Oeste
Schminke Haus, Alemanha. 1924
O vidro e as influências da corrente de vidro na arquitetura moderna.
A história da descoberta do vidro é bem antiga, e os primeiros registros datam de 5000 a.C.; quando mercadores fenícios descobriram acidentalmente o novo material ao fazerem uma fogueira – na beira da praia – sobre a qual apoiaram blocos de nitrato de sódio ( que serviam para segurar suas panelas). O fogo, aliado à areia e a o nitrato de sódio, originou, pela primeira vez acredita-se, um líquido transparente, o vidro.
A produção de vidro em escala industrial chega com força nos finais do século XIX e princípios do XX , devido à concentração de população nas cidades. Finalmente, com a instalação do Palácio de Cristal na exposição mundial de Londres, em 1851, começou a chamada “arquitetura do vidro.
Mas foi a experiência expressionista que vem como principal expoente da utilização deste material. Ela deslocou o problema da funcionalidade do plano da técnica construtiva e da resposta a exigências praticas para uma funcionalidade visual dada, ele se contrapôs a concepção da arquitetura que a modifica e instaura uma nova realidade, trouxe novas relações para espaços de bem –estar, hospitais, escolas, onde o vidro melhoraria a insolação e higiene através de as transparência, além de abrir á arquitetura européia a possibilidade de relações mais profundas com a arquitetura de Wright e Mies van Der Rohe.
Sobre Mies, após a guerra , vai ser um dos arquitetos que tomam parte ativa nas polêmicas artísticas e sociais de Berlim . Mies vai trabalhar no Novembergruppe, preparando entre 1919 e 1923, uma série de projetos teóricos entre eles dois arranha céus de vidro, um deles, a torre de vidro era definida por um gigantesco tronco de aço com vários andares, no qual onde as paredes sendo levantadas , o sistema estrutural , que esta na base da composição , fica escondido por trás de um caos de formas significantes. O contorno ondulado ou fragmentado da planta evitava a definição do volume circunscrito a fim de evidenciar o significado ritmo originário dos vários andares sobrepostos.
Mies van der Rohe , arranha-céu de vidro, 1921.
Esses projetos, assim , exibidos entre 1919 e 1923 surgem no âmbito da vanguarda alemã e no repertório expressionista.
Paul Scheerbart também promoveu a preferência pelo vidro entre os arquitetos expressionistas. Ele o via como uma expressão de uma nova moral, como símbolo de discernimento, determinação clara e gentileza. Simbolizava também a busca por clareza e pela verdade superior, e serviria, portanto, como catalisador social para que tais características se espalhassem pela sociedade. A transparência, ao forçar o usuário a se relacionar com o meio ambiente e com os outros constantemente, seria a semente para uma nova cultura. A corrente de vidro influenciaria assim, ao assumir o potencial purificador do vidro, a Arquitetura Moderna ,tendo esta a verdadeira admiração pelo vidro onde a transparência é tida como uma representação da mentalidade da época, em que as várias áreas da vida são interpenetrantes, diluindo seus limites. Nesse sentido, a permeabilidade visual proveniente da transparência seria uma representação material desse sentimento moderno.
Segundo as palavras de Sigfried Giedeon: “Hoje em dia precisamos de uma casa, que corresponde em sua inteira estrutura ao nosso sentimento corpóreo da maneira como ele é influenciado e liberado através dos esportes, ginástica e uma maneira sensual de viver: leve, transparente, móvel. Conseqüentemente, essa casa aberta também significa uma reflexão da condição mental contemporânea: não há mais assuntos separados, todos os domínios se interpenetram.”
Gropius, com o uso das cortinas de vidro nas fachadas, foi o inventor da “esquina desmaterializada” no edifício, pois ao deslocar a estrutura do perímetro do edifício, libera as fachadas para a colocação de vidro ilimitado, possibilitando uma sensação de imaterialidade da obra, como se pode ver na fábrica Fagus, por exemplo.
Fábrica Fagus, de Gropius..
Alfeld/Leine, iniciada 1911
Assim, ainda que o movimento da corrente de vidro tenha sido curto, acabando por volta de1920 desfazer-se e render-se às questões industriais e capitalistas, sua contribuição talvez tenha sido suficiente na ousadia de pensar novas maneiras de projeto e utilização dos materiais como o vidro e o aço, pensando ainda em uma transparência e a abertura da nova arquitetura que se integra ao processo de quebra dos padrões construtivos da época.
Bibliografia.
Historia e critica da arquitetura moderna
Kenneth Frampton, Martins fontes, 1997
ARGAN, G.C. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras,1988.431p.
BENEVOLO, L. História da Arquitetura Moderna. São Paulo, 1976. 129p







24/07/2009 às 18:59 |
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