Futurismo

“Não sou um poeta. Sou um libertino. Não tenho qualquer método de trabalho. Tenho um sexo. [...] E se escrevo, será talvez por necessidade, por higiene, como se come, como se respira, como se canta. [...]

A literatura faz parte da vida. Não é qualquer coisa “à parte”. Não escrevo por ofício. Viver não é um ofício. [...] Fiz meus mais belos poemas nas grandes cidades, no meio de cinco milhões de homens – ou a cinco mil léguas sob os mares, em companhia de Júlio Verne, para não esquecer os mais belos jogos de minha infância. A vida inteira não é mais que um poema, um movimento. [...]

Amo as lendas, os dialetos, os erros de gramática, os romances policiais, a carne das meninas, o sol, a Torre Eiffel, os apaches, nos bons negros, e esse astucioso europeu que zomba da modernidade. Aonde vou? Não tenho idéia, pois entro até nos museus. [...]

Eis o que eu tinha a dizer: tenho febre. [...]” – Blaise Cendrars 1913

Blaise Cendrars, poeta suíço, que viveu por um tempo na Rússia, nos Estados Unidos, e na França, nascido Frédéric Louis Sauser, nunca se considerou futurista, no entanto, num manifesto defensor de sua própria obra publicado em um periódico alemão, Cendrars exprime a doutrina futurista de que vida e arte são inseparáveis. Glorificando o caos, as multidões, as cidades, a violência da arte que nasce no meio do povo, da arte que não é só arte, mas é sexo, é forma de vida, é febre.

Nessa época o mundo testemunhava um avanço tecnológico que possibilitava romper barreiras como o espaço e o tempo, o primeiro vôo extenso de aeroplano em 1909, o primeiro vôo através do canal da mancha, o uso de aviões no desenrolar da guerra, o telégrafo, o telefone, os automóveis, como nunca antes, tinha-se a sensação de poder estar em todos os lugares ao mesmo tempo.  Anunciava-se então uma nova era com o êxtase de quem assiste atentamente cada mudança e o desenvolvimento de um mundo cujas vertentes fundamentais deveriam se soltar completamente do passado.

“Mil coisas admiráveis, mil incompreensíveis fantasmagorias, que permitem ao homem viver mil vezes mais e mil vezes melhor do que antes.” - Maxime Du Camp

No meio disso tudo, nesse clima exultante, numa ânsia de progresso e entre os profundos contrastes sociais que permeiam a cidade moderna, surge o futurismo, um movimento que mais do que artístico, era uma procura de traduzir na arte as transformações sociais, era uma atitude perante a vida.

“[...] Uma prova de que os artistas não seguiram o processo de transformação está nisso: enquanto os cientistas estudam e criam palpitando com a alma universal que os circunda, os artistas criam coisas mortas, e numa linguagem desconhecida não apenas à maioria, mas também aos poucos. É impossível que a era da arte tenha acabado e que tenha começado aquela da ciência. [...]

[...] Sinto em meu trabalho a necessidade da geometria; de perceber, de calcular; de apresentar um conjunto talvez rígido, mas ordenado e límpido” – Umberto Boccioni

A Cidade Desperta - Umberto Boccioni

A Cidade Desperta - Umberto Boccioni

Era a busca por uma expressão plástica que fosse capaz de representar a modernidade em sua totalidade, nos ritmos dos novos tempos. Indo contra os oficialismos vigentes, tão tradicionais, os futuristas começaram a conceber sua arte como uma tentativa de mostrar o mundo, não como realmente era, mas como era realmente experimentado. A procura de uma sensibilidade aguda e multiplicada, estudavam o movimento numa tentativa de representação que causasse a melhor sensação dinâmica.

Dinamismo de um Cão numa Trela - Giacomo Balla

Dinamismo de um Cão numa Trela - Giacomo Balla

“Os elementos essenciais da nossa poesia serão coragem, audácia e revolta. Queremos exaltar o movimento demasiado agressivo, a insônia febril, a corrida, o salto perigoso, a bofetada, o soco.” – Marinetti, Primeiro Manifesto Fundador do Futurismo

Num culto da violência, da guerra como única higiene do mundo, do patriotismo, do militarismo, o único valor é a ação. Marinetti, poeta italiano e escritor do Primeiro Manifesto Fundador do Futurismo, não apenas despreza os ideais tradicionais, mas também despreza a racionalidade.

“Afastemo-nos da racionalidade como de uma horrível casa… Entreguemo-nos ao desconhecido, não por desespero, mas para mergulhar nas profundidades do absurdo!”

O movimento futurista apresenta-se como uma rebelião contra a cultura oficial, produzindo uma aproximação notável entre a vanguarda estética, a política radical e a cultura popular. Num extremismo polêmico, ele exaltava a cidade nova, desprezando as cidades históricas e os museus ao ponto de pedir sua destruição. Era, na verdade, um grito italiano que tentava preencher as lacunas românticas e inserir a arte italiana no circuito europeu. Era um reclame de um país menos desenvolvido, que via a industrialização que se iniciava em um clima de grande euforia e expectativa, numa representativa de um salto qualitativo e quantitativo que leva parte do país a reclamar um lugar entre as potências imperialistas e colonialistas.

“[...] As fileiras imundas de todos os inferiores física, intelectual e socialmente, engrossadas sempre por novos recrutas, tornadas pelo número mais insolentes, pululam por toda parte à nossa volta, subvertendo as ordens da vida, abatendo todo signo de elevação, saqueando todo bem a nós devido. Não pedem mais: tomam; não ameaçam mais, contaminam, quebram, matam,  até que amanhã, abaladas todas as defesas, rompidos todos os diques, se instalarão nas acrópoles sociais, esmagando os fracos e os ineptos, que não souberam defendê-las e defender-se” – Mario Morasso, 1899

Recorrentes no debate ideológico e cultural do início do século, os motivos da luta levam a exaltação da modernidade da guerra, fonte de heroísmo, pleno desenvolvimento da vontade, lição de energia a par do novo ritmo da vida mundial. Num ideal anarquista de destruição como negação do passado, insere-se o pensamento de Marinetti, numa exaltação da guerra, da abolição do museu, da fronteira entre vida e arte, para chegar numa expressão nova. Extremamente influenciado por Nietzsche e sua idéia do Übermensch, o super-homem que Zaratustra, o profeta, desce das montanhas para proclamar.

“Conheço a alegria da destruição em grau comparável unicamente à minha força destruidora; e para uma e outra obedeço ao meu temperamento dionisíaco que não separa a ação negativa do pensamento afirmativo. Eu sou o primeiro imoralista; por isso, sou também o destruidor por excelência.” Friedrich Nietzsche – Ecce Homo

“Queremos libertar-nos de tudo e de todos. Queremos voltar nus na alma como Adão inocente foi nu no corpo. Queremos jogar fora todos os mantos da religião, as casacas das filosofias, as camisas dos preconceitos, as gravatas corredias dos ideais, os sapatos da lógica e as cuecas da moral.

É preciso raspar a pele, limpar a alma desinfetar o cérebro, jogar-se na água corrente, voltar a sermos crianças, inocentes e naturais como saímos do útero de nossa mãe. Não queremos mais que os mortos comandem os vivos, que os livros inspirem as vidas, que a Razão e a História continuem ainda, com todas as maiúsculas, a manter-nos cerrados e apertados nas carteiras das escolas, em pé e de boca aberta para receber aos poucos o pão mastigado por outras bocas [...]” Papini

É a busca por uma modificação da realidade e dos instrumentos de conhecimento da realidade, para se tornar parte da realidade e não apenas o observador. Não mais a contemplação, mas a ação.

“Nós queremos a teoria-instrumento, a idéia-martelo, a filosofia industrial, a exploração prática do espírito”

O homem-motor, o sujeito se exprime espontaneamente, fazendo da arte a livre atividade, sem regras ou objetivos utilitários, numa superação da realidade, na descoberta de mundos inexplorados, na intuição dinâmica que redescobre a própria criatividade. A máquina é o monumento da nova era, um monumento anônimo, que vai além do individuo e que só pode ser edificado pela multidão. É universal e coletivo.

Boccioni

Boccioni

O primeiro movimento que se pode chamar de vanguarda, o futurismo representa uma nova tomada de consciência do papel do artista na sociedade contemporânea, que passa a ser uma figura engajada politicamente, investindo um interesse ideológico na arte. O artista representava o papel do “gênio”. Dizendo-se anti-românticos, os futuristas pregam um arte que expresse “estados de alma”, fortemente emotiva; exaltam a ciência e a técnica, mas querem-nas intimamente poéticas, são internacionalistas mas no momento da opção política, prevalece o nacionalismo.

“O momento futurista pertence a todas as vanguardas e não só àquela que teve esse nome [...] o movimento assim denominado foi apenas um sintoma significativo de um estado mental mais amplo e profundo.” Renato Poggioli

Marcel Duchamp - Nu Descendo Escadas

Marcel Duchamp - Nu Descendo Escadas

“[Os futuristas] perceberam aguda e claramente que a nossa era, a era da grande industria, da grande cidade proletária e de vida intensa e tumultuosa, precisava de novas formas de arte, filosofia, comportamento e linguagem. Essa idéia agudamente revolucionária e absolutamente marxista lhes veio à mente quando os socialistas não estavam sequer vagamente interessados em tal questão, quando os socialistas certamente não tinham uma idéia precisa em política e economia. [...] No seu campo, o da cultura, os futuristas são revolucionários. Nesse campo é provável que se passe um longo tempo antes que as classes trabalhadoras possam lograr qualquer coisa mais criativa do que os futuristas fizeram.” Antonio Gramsci

Bibliografia:

Perloff,  Marjorie- O movimento Futurista

Argan, Giulio Carlo – Arte Moderna

Nash, J. M. – O Cubismo, O Futurismo e O Construtivismo

Fabris, Annateresa – Futurismo: Uma poética da Modernidade

Maria Cecilia Vidal Magalhães Lara, 92728

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