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A flexibilidade gerada pelo uso de novos materiais

24/07/2009

A construção em ferro e aglomerados plásticos não é uma invenção moderna: o concreto era conhecido pelos construtores da Roma antiga; no século XVIII construíam-se estufas, galpões, pontes de ferro. A substituição da lenha pelo carvão na extração do ferro permitiu seu processamento e produção industrial, e, quase simultaneamente, nascem as primeiras fábricas de cimento. Inicialmente, o ferro fora usado como material para cobertura, como proteção contra incêndios, já que antes eram de madeira e estavam sempre pegando fogo. As condições efetivas que levam à utilização do ferro e do cimento como materiais de construção são:

1)      A produção desses materiais em grande quantidade e baixo custo;

2)      A possibilidade de transportá-los facilmente, também sob a forma de elementos pré-fabricados, das fábricas aos canteiros de obras;

3)      Suas qualidades intrínsecas de materiais de sustentação e a possibilidade de cobrir amplos espaços com uma área mínima de suportes;

4)      A economia no tempo e custo da construção;

5)      O progresso da ciência das construções e do cálculo matemático das cargas e empuxos;

6)      A formação de escolas especializadas para engenheiros.

Entre 1775-79, foi executada a primeira ponte de ferro fundido sobre o rio Severn que de construção simples, embora não interesse como obra de arte nem mesmo como problema arquitetônico, abre caminho para obras de grande importância.

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Ponte de Ferro sobre o rio Severn

Quando Joseph Paxton (1803-65), inicialmente construtor de estufas, projeta e realiza o Palácio de Cristal para a Exposição Universal de Londres de 1851, ele traz um novo método de projeto e execução. A novidade é o emprego de elementos pré-fabricados (segmentos metálicos e lâminas de vidro), produzidos em série e levados aos canteiros de obras prontos para serem utilizados. Economiza-se tempo e dinheiro: a construção se reduz à rápida montagem de peças pré-fabricadas, e o material pode ser recuperado.

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Palácio de Cristal para a Exposição Universal de Londres de 1851, Joseph Paxton

Por trás do interesse prático, havia uma idéia revolucionária: empregar materiais e técnicas da construção utilitária para levantar um edifício altamente representativo, fazer arquitetura com os procedimentos da engenharia. Ainda que não ouse reabsorver inteiramente a decoração na estrutura, Paxton obtém três resultados essenciais no plano estético:

1)      Valoriza o desenvolvimento dimensional, libertando do peso da massa a geometria dos volumes;

2)      Realiza uma volumetria transparente, eliminando a distinção entre espaço interno e espaço externo e dando um grande predomínio ao vazio (as vidraças) em relação ao cheio (os delgados segmentos metálicos);

3)      Obtém no interior uma luminosidade semelhante à do exterior.

As vantagens práticas do método favorecem sua difusão: H. Labrouste (1801-75) constrói em ferro e vidro o Salão da Biblioteca Nacional de Paris (1868); G. Mengoni (1829-77), o importante cruzamento viário da Galeria Vitor Emanuel de Milão (1865).

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Salão da Biblioteca Nacional de Paris (1868)

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Galeria Vitor Emanuel de Milão (1865)

Só por volta de 1850, com a cúpula em ferro fundido da rotunda do Museu Britânico, nervuras de ferro fundido estendendo-se do chão ao teto foram utilizadas na construção de um grande edifício.

Apesar da polêmica, acirrada principalmente na França, entre os pioneiros da funcionalidade técnica e os conservadores da arquitetura “dos estilos”, isto é, entre estruturalistas e decoradores, firma-se cada vez mais a convicção de que apenas com as novas tecnologias construtivas será possível alcançar aquela configuração dinâmica do espaço que corresponde à sensibilidade, ao sentido da vida da sociedade moderna.

A vitória dos técnicos é consagrada pela construção da Torre projetada por A. G. Eiffel (1832-1923) para a exposição de Paris de 1889; com trezentos metros de altura, recebe da curvatura dos perfis angulares e da tensão dos tirantes, que tecem a treliça metálica, o empuxo que a eleva acima do horizonte urbano como uma gigantesca antena ou um simbólico farol. É uma construção tecnicamente funcional, cuja única funcionalidade, porém, é dar visualidade e magnitude aos elementos de sua estrutura; sua inegável função representativa se cumpre na representação de sua funcionalidade técnica. É, portanto, um elemento macroscópico de decoração urbana, que prevalece decididamente sobre os velhos símbolos das torres de Notre-Dame e da Cúpula dos Invalides; um monumento cuja singularidade é não ter nada de “monumental”, pois não comemora nem celebra um passado, não exprime princípios de autoridade nem dá expressão visual a ideologias, contudo glorifica o presente e anuncia o futuro.

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Na torre Eiffel, e justamente por não ter outra função além de visualizar sua própria funcionalidade técnica, vê-se claramente como a pesquisa estruturalista, no campo da arquitetura, era o equivalente da pesquisa impressionista na pintura. Uma estrutura linear que não interrompe a continuidade do espaço e desenvolve seu entrelaçamento “às claras” na luz e no ar é, incontestavelmente, um caso típico de plein-air arquitetônico. A técnica construtiva do ferro é rápida e direta, como a técnica instaurada pelos impressionistas.

A força e a elasticidade do material solidificado e a própria técnica da fundição transformam radicalmente a estrutura da imagem arquitetônica: não mais massas e volumes, mas superfícies e delgados pilares de sustentação; não mais equilíbrio entre espaços cheios plásticos e espaços vazios perspectivos, mas nítido predomínio dos grandes vazios sobre suportes finos e vigorosos; não mais apenas arcos verticais e horizontais a pleno cimbre, mas obliquas e curvas parabólicas, arabescos; não mais distinção entre partes de sustentação e partes de preenchimento, mas modulação da forma na própria matéria. No final do século, principalmente por obra de François Hennebique (1843-1921), o concreto armado se torna de uso corrente, por meio de astrálogos de ferro inseridos na massa: assim não só aumenta a força de sustentação do conglomerado, como também a flexibilidade linear do ferro se combina com a modelação plástica do cimento. Sobre as extraordinárias possibilidades de flexão e tensão do concreto armado e os progressos de sua respectiva técnica fundam-se os desenvolvimentos do estruturalismo arquitetônico do século XX.

A construção em ferro e cimento é sem duvida a causa principal do rápido processo de industrialização da arquitetura, através de outra metodologia do projeto e uma nova organização do canteiro de obras.

Referências Bibliográficas:

Argan, Giulio Carlo. Arte Moderna. Ed. CIA DAS LETRAS

FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura moderna. Sao Paulo: Martins Fontes, 1997

GIDEON, Sigfried. ESPAÇO, TEMPO E ARQUITETURA. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2004.

Daniel Rodrigues Pascoal