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Torre Eiffel, a reação francesa

30/06/2009

“A interpretação de pontos de vista continuamente variáveis cria, na visão do espectador que se move, a experiência da quarta dimensão.” (Gideon)

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INTRODUÇÃO:

No século XIX a revolução industrial colheu seus frutos com o uso em larga escala de produtos industrializados. Como um meio de propaganda desses novos produtos, eram feitas exposições; na primeira metade do século essas exposições tinham um nível nacional, mas a partir da exposição de Londres-1851, elas ganharam um caráter universal, pois já existia o conceito de comércio livre internacional.

O que se via nas exposições eram as novas técnicas construtivas com os novos materiais, ferro e vidro, e sempre existia um grande pavilhão para a mostra das maquinas. Esses pavilhões eram imensos e a cada edição das exposições vencia-se um vão maior e tinham-se novidades de projetistas, artistas, empreiteiros, engenheiros, arquitetos de vários países; o que as tornava muito populares.

A principal de todas as exposições universais foi a de Paris-1889, feita no campo de marte, no coração de Paris, teve a grande galeria das maquinas sendo um grande atrativo, mas a obra mais importante que prevalece até hoje com uma influência dentro da cidade e do país foi a grande torre de 300 metros projetada por Gustave Eiffel. Com várias opiniões diferentes antes e depois de sua construção, várias divergências, o que não há dúvida é de que a Torre Eiffel é o grande símbolo da cidade de Paris hoje, e não se imagina a França sem a torre Eiffel.

TORRE EIFFEL:

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A exposição de 1889 foi feita em comemoração ao centenário da tomada da bastilha, foi feita como as outras no campo de marte e tinha um complexo que compreendia a um palácio com planta em U, a galeria das máquinas e a grande torre de 300 metros. O palácio não tem muita força arquitetônica, com uma cúpula carregada de decorações ecléticas, mas a galeria e a torre têm forte sentido principalmente pelas suas dimensões nunca vistas tão grandes construções em ferro; apesar de algumas decorações não muito felizes.

Para a escolha do projeto foi feito um concurso do qual participaram 700 projetos. Eiffel foi escolhido em 1885, não só pelo melhor projeto mas muito também em razão de seu prestígio que já havia ganho participando de outras exposições, por seus já existentes grandes projetos e por seus conhecimentos do impacto do vento em estruturas, que ele aprendeu a dominar com as construções de pontes em águas profundas, que deu a ele uma base sobre os impactos do vento, da água e do clima.

“O primeiro princípio da estética arquitetônica prescreve que as linhas essenciais de um monumento devem adequar-se perfeitamente a sua destinação. E qual lei tive de levar em conta e relação à torre? A resistência do vento. Pois bem, sustento que as curvas das quatro costelas, da maneira pela qual foram expressas pelos cálculos…, darão uma grande impressão de força e de beleza, porque tornarão sensível à visão o arrojo da concepção do conjunto, ao mesmo tempo que os numerosos vazios escavados nos próprios elementos farão ressaltar energeticamente o cuidado constante de não oferecer ás violências dos furacões superfícies perigosas para a estabilidade do edifício.” (Eiffel)

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Gustave Eiffel fica com todo o crédito pelo projeto da torre, mas é importante lembrar que ele contou com dois engenheiros que trabalhavam com ele: Nouguier e Koechlin; e a parte arquitetônica com Sauvestre. O projeto foi aprovado em 1885, iniciou-se sua construção em 1887 e foi finalizado em 1889.

Uma pergunta freqüente feita sobre a Torre Eiffel é: “Porque ela não foi demolida como a maioria das outras obras feitas nas exposições universais?”. A torre na verdade tinha um limite pré-estabelecido de vinte anos de existência, a partir daí buscaram-se estratégias para sua conservação, a primeira foi a instalação de uma antena de transmissão de telégrafo sem fio em 1898; tempos depois ela foi usada para telegrafia militar durante o período das duas grandes guerras, depois disso a força do turismo e outras antenas de transmissão de sinais de rádio e televisão impediram que a torre fosse demolida; e hoje quando se fala em Paris pensa-se logo na Torre Eiffel, que é um dos monumentos turísticos mais visitados do mundo.

Antes mesmo do início da construção da torre, logo depois do projeto ter sido aprovado, uma carta foi escrita por intelectuais para o presidente do comitê da exposição Alphand protestando contra a construção da torre:

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“Nós, escritores, pintores, escultores, arquitetos, apaixonados amantes da beleza de Paris, até agora intacta, protestamos com todas as nossas forças, em nome do gosto francês renegado, contra a construção, em pleno coração de nossa capital, da inútil e monstruosa Torre Eiffel, que a maldade pública, freqüentemente inspirada pelo bom senso e pelo espírito de justiça, já batizou com o nome de Torre de Babel. A cidade de Paris irá associar-se mais uma vez à barroca, à mercantil imaginação de uma construção (ou de um construtor) de máquinas, para enfrear-se irremediavelmente e desonrar-se? Porque a Torre Eiffel, que não desejaria para si mesmo a comercial América, é a desonra de Paris, não tenham dúvida. É necessário, a fim de perceber aquilo que estamos entrevendo, imaginar por um instante uma torre vertiginosa e ridícula que domine Paris como uma gigantesca e escura chaminé de fábrica, todos os nossos monumentos humilhados, toda a nossa arquitetura diminuída, até desaparecer nesse sonho chocante. E, por vinte anos, veremos alongar-se, como uma mancha de tinta, a sombra odiosa da odiosa coluna de ferro cheia de rebites. A vós, senhor e caro compatriota, a vós que tanto amais Paris, que haveis embelezado, cabe a honra de defende-la ainda. E, se nosso grito de alarme não for entendido, se nossas razões não forem ouvidas, se Paris obstinar-se na idéia de desonrar Paris, ao menos teremos, vós e nós, feito ouvir um protesto honroso.”

É totalmente compreensível que certas pessoas temessem que a construção de uma torre de dimensões tão grandes abalasse a visão da cidade, pois é um grande impacto certamente; mesmo o próprio Eiffel, no início, temeu abalar o gosto reinante com a construção de uma estrutura nua e resoluta no coração de Paris, pois a torre constituía, para os representantes do gosto reinante, uma ameaça, uma desgraça. Mas obviamente não era toda a sociedade parisiense que tinha esse pensamento, existiam também pessoas que apoiavam a idéia da construção da torre e que estavam entusiasmadas; esse protesto foi feito por um grupo de artistas e literatos, que não era a mesma opinião de toda a cidade. Enfim, com ou sem protesto, a torre foi construída e com isso vieram novas reações. A grande maioria, como era de se esperar, ficou espantada com a grandiosidade e beleza da torre; algumas das próprias pessoas que haviam protestado pela carta reverteram sua opinião tal foi o impacto que a Torre Eiffel teve, não só no campo de marte como pensava o ministro Lockroy, mas em toda Paris. A cidade acabara de ganhar um presente, um presente de 300 metros de altura que se tornaria referência na cidade como ponto de encontro, ponto de localização, de referência, de turismo e de convivência. A Torre Eiffel proporcionou tudo isso e mais um pouco à Paris; a torre vigia a cidade, amo mesmo tempo que se vê a Torre de todo conto de Paris, a torre enxerga todos e toda a cidade sem sair do lugar, dando um sentido de proteção para o parisiense.

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A REAÇÃO FRANCESA

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Mesmo com o protesto,  a decisão da construção da torre não foi mudada, o ministro Lockroy  alegou em resposta que a torre só afetaria a insignificante paisagem do campo de marte, mas estava errado. Isso mostra que os olhos do parisiense não estavam preparados para tamanha dimensão, quase ninguém tinha a exata noção do que seriam 300 metros, do que eles representariam, o impacto realmente seria gigantesco.

Após o término da construção da Torre Eiffel a euforia foi total, algumas pessoas se dispuseram até a subir todos os degraus da torre para comemorar no topo junto com o engenheiro, e com isso, algumas posturas que antes eram contrárias se tornaram favoráveis.

“Face ao fato – e que fato! – concretizado, é preciso inclinar-se. Também eu, como muitos, disse e acreditei que a Torre Eiffel fosse uma loucura, porém é uma loucura grande e orgulhosa. É certo que essa massa imensa esmaga o resto da Exposição e, quando se sai do Campo de Marte, as cúpulas e galerias gigantescas parecem pequenas. Mas o que querem? A Torre Eiffel impõe-se à imaginação, é algo de inesperado, de fantástico, que lisonjeia nossa pequenez. Quando havia sido apenas começada, os mais célebres artistas e literatos, de Meissonnier à Zola, assinaram um ardente protesto contra a torre, como sendo um delírio de lesa-arte; assiná-lo-iam agora? Não, por certo, e gostariam que aquele documento de sua cólera não existisse. Quanto às massas populares, quanto à boa burguesia, seu sentimento se resume numa frase pronunciada por um cidadão honesto, depois de haver ficado cinco minutos de boca aberta diante da torre: Enfoncée l´Europe!”

(FOCHETTO, 1889, p. 7)

Obviamente algumas reações continuaram contrárias.

“A Torre Eiffel faz-me pensar que os monumentos em ferro não são monumentos que conheceu a madeira e a pedra para construir seus refúgios. Depois, nos monumentos em ferro, as superfícies planas são assustadoras: veja-se a primeira plataforma da Torre Eiffel, com aquela fila de duplas guaritas: não se pode imaginar nada de mais feio para o olhar de um velho civilizado!”

Jornal dos Goncourt

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Mas de uma maneira geral, a “novidade” não teve um impacto negativo. Mudaram-se as percepções, as noções, o sentido de espaço dos parisienses. A verticalidade toma o lugar da horizontalidade, a torre se sobressai diante da cidade, o espaço se transforma.

“A sensação que se experimenta quando se chega ao topo da torre faz dela a irmã terrestre do avião.”Com essas palavras, Gideon justifica a atitude de Santos Dumond de escolher e Torre Eiffel como sua trajetória para seu primeiro vôo de avião; justifica também que, a partir dessa época em que cresce o interesse pelas máquinas voadoras, cresce também a venda de ingressos para visitação, mostrando o quanto a escala da torre faz a diferença na sensação e na percepção de quem a visita.

Benévolo cita em seu livro que a Torre Eiffel é uma obra incerta e falha, pelas suas superestruturas decorativas e pela descontinuidade do desenho geral; essa descontinuidade acontece em razão da estrutura que é feita em três estágios antes de atingir sua altura plena.

Mas mesmo assim, com essas “falhas”, a Torre Eiffel é muito importante para a cidade de Paris e para toda a França, pois virou um símbolo marcante na cultura nacional além de ser um ponto de referência dentro da cidade, um marco turístico, um ponto de concentração de pessoas, de comércio, de renda. Apesar das considerações de Benévolo, a beleza da torre é inquestionável, isso se dá pela sua monumentalidade não por simples decorações mal feitas, qualquer ser humano se rende a tamanha altura, qualquer um pára para olhar e tentar capturar toda a torre em seu campo de visão, olha e paralisa-se durante minutos para contemplar não só simples pedaços de ferro empilhados, mas uma harmonia de linhas que vão até o céu e que inexplicavelmente capturam o olhar e a atenção de todos. São reações diferentes para cada pessoa, que levam a pensamentos diferentes, viagens; mas como essa torre consegue causar isso nas pessoas? Como uma obra que não era nem para estar em pé ainda, que foi feita para mostrar um material que já dominamos com muito mais perfeição do que naquela época, causa o mesmo impacto para uma pessoa que a vê pela primeira vez como se ainda fosse uma novidade? Essas perguntas, que são a essência da arquitetura, estão presentes na Torre Eiffel, sem resposta.

Curiosidades:

Na Torre Eiffel estão gravados 72 nomes de cientistas, engenheiros e outros franceses notáveis por suas contribuições, são 18 nomes em cada fachada (N, S, L, O); eis alguns dos principais e mais famosos nomes: Lagrange, Laplace, Lavoisier, Ampère e Coulomb.

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_72_nomes_na_Torre_Eiffel

Em setembro de 1888, pouco antes do término da construção, acontece uma greve dos operários que construíam a torre por melhores salários e condições de trabalho; Eiffel rapidamente atende às reivindicações para não perder a luta contra o tempo. Logo depois acontece outra greve, mas dessa vez o engenheiro tem outra atitude, confina os líderes do movimento para trabalhar no primeiro andar, o que era uma humilhação, tal era a importância da altura para a torre.

Referências:

Benévolo, L. História da Arquitetura Moderna

Gideon, S. Espaço, Tempo e Arquitetura

Frampton, K. História Crítica da Arquitetura

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