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A visão do espaço para Pablo Picasso e Piet Mondrian

24/07/2009

Contra ritmos soltos, espacialidade aberta, a composição amplamente melódica da obra-prima de Matisse, que, no entanto, deve seu puro lirismo a Cézzane, Picasso retoma a arquitetura tensa, inteiriçada, de Mulheres no banho, de Cézzane. Picasso passa a pintar com linhas duras, cortantes, angulosas, de modo a que essas superfícies se tornem planos sólidos, formem ângulos vivos, assumam uma consistência volumétrica.

O espaço já não é fator comum que harmoniza no infinito todos elementos do quadro; é  um elemento como todos os outros, presente e concreto; deforma-se e decompõe-se tal como as figuras. Se o espaço deve ser uma forma homogênea e unitária, não pode ser interrompido pela consciência material e impenetrável das coisas.

O espaço não é nada que exista em si, é a realidade ordenada e configurada na consciência, desse modo, não pode existir nada de incerto, ilusório ou alusivo na forma do espaço. As únicas dimensões certas, na realidade, são a altura e largura, que se traduzem respectivamente na vertical e na horizontal; a terceira dimensão é ilusória.

Na visão empírica o mesmo objeto não pode se encontrar em lugares diversos ao mesmo tempo, nessa realidade inteiramente mental que é o espaço (como realidade ordenada e configurada na consciência), o mesmo objeto pode existir com muitas formas diferentes que, naturalmente, ocupam situações diversas.

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Picasso reconstrói as coisas na continuidade do espaço através de formas geométricas, que considera como fundamento unitário tanto das coisas quanto do espaço. Intelectual e não sensorial, embora plenamente visual, tal é a verdade que buscam Picasso.

Com o cubismo analítico, a continuidade entre o objeto e o espaço torna-se absoluta, a imagem parece esboçada, talhada, gravada no espaço, que se converte em matéria sólida e, ao mesmo tempo, emborca-se totalmente na superfície, numa objetivação quase absoluta.

O contorno de Picasso é tão assertivo e independente de seu fundo que o observador tem de alguma forma a sensação de uma figura positivamente transparente sobre um espaço relativamente profundo, e só mais tarde ele redefine esta sensação para permitir uma real superfície do espaço. Em Picasso temos a sensação de olhar através de uma figura colocada  num espaço profundo.

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Picasso, no espaço lateralmente construído da sua pintura, também oferece ilimitadas possibilidades de interpretação alternativas, através da compilação de formas maiores ou menores.

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Embora fragmentado e redefinido, o espaço estende-se para além do plano do quadro e não tem limites visíveis potencialmente, pode conter objetos que não estão à vista.

Mondrian pensava que, a obra de arte deve ter como estrutura própria uma essência teórica rigorosa. Quando se subdivide a superfície por meio das coordenadas verticais e horizontais, resolve numa proporção métrica tudo o que, na natureza, apresenta-se como altura e largura. Resta o que se apresenta na terceira dimensão: e são as infinitas sensações variáveis segundo a cor local, a distancia, a luz.

A concepção espacial de Mondrian exerceu profunda influência sobre a arquitetura; e não tanto sobre as formas arquitetônicas, e sim sobre sua valorização da funcionalidade vital dos espaços, sobre a planimetria que os define e os distribui, sobre o projeto.

A obra de desenho puro sobre uma superfície plana, vazia de representação, não elimina a ilusão do espaço entendido além do plano da tela ou de seus limites, nem as ambiguidades de aparência e realidade. Tampouco suas características regulares e sua ordem rigidamente equilibrada excluem o aspecto de incompleto, casual e contingente.

Mondrian adota um conjunto de regras que restringem os elementos a linhas horizontais e verticais num único plano e permitem apenas preto, branco e as 3 cores primárias, contidas entre essas linhas e jamais ultrapassando-as, esses requisitos não bastam para definir a estrutura da obra como uma aparência.

Essa opção não é somente uma busca cuidadosa de variação por Mondrian, há também seu compromisso com uma abertura e uma assimetria que nos leva além da concretude dos elementos e sugere relações com um espaço e formas externas a superfície pintada tangível.

O seu objetivo era a “pura realidade” que definia como o equilíbrio de “posições desiguais, mas equivalentes”. Para Mondrian a discussão do espaço era feita com cores, campos e coordenadas cartesianas. Mondrian aceita uma simplificação da imagem geométrica da imagem cubista, com uma composição em planos geométricos, mas não aceita a equivalente abstração cubista do espaço.

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Picasso e Mondrian, apesar de terem passado por fase cubista, podemos observar que os dois artistas têm visões diferentes do espaço e maneiras de pensar e expressarem essa visão cubista de maneiras diversas. Os dois tiveram grande importância para a arte, trouxeram inovações significativas no modo de pensar a espacialidade entre outros muitos aspectos.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Piet Mondrian: Composição em vermelho, amarelo, azul. Pág. 409-418.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Pablo Picasso: Os saltimbancos – Les Demoiselles D’avignon. Pág.422-426.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Pablo Picasso: Natureza-morta espanhola – Georges Braque: Natureza-morta com o ás de paus. Pág. 426-430.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Piet Mondrian. Pág. 676-677.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Pablo Picasso. Pág. 680-681.

SCHAPIRO, Meyer. A Arte Moderna. Mondrian – Ordem e acaso na pintura abstrata. Pág. 297-330.

JANSON, H.W. História Geral da Arte. Pág. 953-965

Natalia Rabelo Rocha – 92764